sábado, 14 de setembro de 2013

São os Sonhos apenas Visões Aleatórias?

Por Helena Petrovna Blavatsky

Fonte: H. P. Blavatsky, Collected Writings, Volume III, pp.433 – 438, 1882.
Theosophical Classics – Electronic Book Edition

Tradução: Marcelo Luz
(Membro da Loja Teosófica Brasília)

"Sonhos são intervalos criados pela imaginação" é o que nos diz Dryden*, talvez para mostrar que até mesmo um poeta faz ocasionalmente sua musa ser subserviente a opiniões preconcebidas.

A previsão dada no sonho acima [apresentado em uma carta dirigida ao “The Theosophist”] é um exemplo do que podem ser considerados como casos excepcionais da vida onírica, sendo a maior parte dos sonhos, de fato, apenas "intervalos criados pela imaginação". A política da ciência materialista é ignorar soberbamente tais exceções, de forma rasteira, temendo talvez que a exceção confirme a regra ou, como preferimos pensar, para evitar a constrangedora tarefa de explicar essas exceções. De fato, se um único exemplo recusar obstinadamente a classificação de "estranhas coincidências" – muito favorável aos céticos - então os sonhos proféticos, ou verificados, exigiriam uma completa remodelação da fisiologia; assim como em relação à frenologia**, o reconhecimento e a aceitação pela ciência dos sonhos proféticos (conseqüentemente o reconhecimento das reivindicações da Teosofia e do espiritualismo), diz-se, "levaria com isso a uma nova ciência educacional, social, política e teológica". Resultado: a Ciência nunca reconhecerá nem sonhos, nem espiritualismo, nem ocultismo.
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* John Dryden (1631—1700) foi um poeta, crítico literário e dramaturgo inglês que dominou a vida literária na Inglaterra durante a Restauração. (Nota do Tradutor)

** Frenologia é uma teoria que reivindica ser capaz de determinar o caráter, características da personalidade, e grau de criminalidade pela forma da cabeça (lendo "caroços ou protuberâncias"). Desenvolvido pelo médico alemão Franz Joseph Gall por volta de 1800, e muito popular no século XIX, está agora desacreditada e classificada como uma pseudociência. (Nota do Tradutor)
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A natureza humana é um abismo que a fisiologia (e, na verdade, a ciência moderna em geral) tem sondado menos profundamente do que alguns que nunca ouviram a palavra fisiologia ser pronunciada. Os altos censores da Royal Society nunca ficam tão perplexos quanto ao serem colocados face a face com este mistério insolúvel - a natureza interna do homem. A chave para isso é – a dualidade do homem. É a chave que se recusam a usar, bem conscientes de que, uma vez que seja escancarada a porta do ádito (portal ou câmara secreta), eles serão forçados a largar uma por uma suas caras teorias e conclusões finais – que mais de uma vez provaram não terem sido mais do que passatempos, sempre que partiram de premissas falsas ou incompletas. Se vamos permanecer satisfeitos com as meias explicações da fisiologia no que diz respeito aos sonhos sem sentido, como explicar os casos dos inúmeros fatos comprovados por sonhos? Dizer que o homem é um ser dual, e que no homem (para usar as palavras de Paulo) "existe um corpo natural e também um corpo espiritual"; e que, portanto, ele deve necessariamente ter um duplo conjunto de sentidos - é, na opinião do cético educado, o mesmo que proferir uma falácia imperdoável e anti-científica. No entanto, a ciência precisa pronunciar-se.

O homem é, inegavelmente, dotado de um duplo conjunto de sentidos; possui os sentidos naturais ou físicos (esses, podemos deixar com segurança que a fisiologia lide com eles), e possui os sentidos subnaturais ou espirituais (pertencentes inteiramente à esfera da ciência psicológica). A palavra "sub", que seja bem compreendido, é usada aqui num sentido diametralmente oposto ao que lhe é dado em química, por exemplo. No nosso caso, é um prefixo, como em "sub-tônico" ou "sub-baixo" na música. De fato, como o conjunto dos sons da natureza manifesta-se como um único tom definitivo, com a nota-chave vibrando a partir da eternidade e por toda ela; tendo uma existência inegável, por si só, mas possuindo uma intensidade apreciável apenas por "ouvidos bem aguçados" * - assim a harmonia ou desarmonia definitiva da natureza externa do homem é vista por um observador como inteiramente subordinada ao caráter da nota-chave emitida ao exterior pelo homem interno. É o Ego espiritual ou Eu que serve como base fundamental, determinando o tom de toda a vida do homem - o mais caprichoso, incerto e variável de todos os instrumentos, que mais do que qualquer outro necessita de ajustes constantes; é sua voz sozinha, que, como o sub-baixo de um órgão, subjaz à melodia de toda a sua vida, sejam seus tons doces ou duros, harmoniosos ou selvagens, legato ou pizzicato**.
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* Este tom é percebido pelos especialistas como o F do meio do piano.

** O legato consiste em ligar notas musicais sucessivas, de modo que não haja nenhum silêncio entre elas. O legato é uma maneira de tocar uma frase musical. O pizzicato é o modo de tocar os instrumentos de corda (geralmente os de arco) pinçando as cordas com os dedos. (Nota do Tradutor)
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Assim, podemos dizer que o homem, além do cérebro físico, tem também um cérebro espiritual. Se o cérebro físico é totalmente dependente do desenvolvimento e do grau de receptividade de sua estrutura física, ele é, por outro lado, inteiramente subordinado ao cérebro espiritual, na medida em que é o Ego espiritual sozinho (conforme ele tenda mais para seus dois princípios mais elevados, † ou para sua forma física) que pode impressionar mais ou menos vividamente o cérebro exterior com a percepção das coisas puramente espirituais ou imateriais.
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† O sexto princípio, ou a alma espiritual, bem como o sétimo princípio puramente espiritual, o Espírito ou Parabrahman, a emanação do inconsciente Absoluto. (Consulte "Fragmentos da Verdade Oculta", The Theosophist, de outubro de 1881.)
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Por isso, o cérebro físico depende da intensidade dos sentimentos mentais do Ego interno, na mesma proporção da espiritualidade de suas faculdades, para transferir a impressão das cenas que seu cérebro semi-espiritual percebeu, as palavras que ouve e o que ele sente, ao cérebro físico do homem exterior que está dormindo. Quanto mais forte for a espiritualidade das faculdades do homem exterior, mais fácil será para o Ego despertar os hemisférios adormecidos, despertar os gânglios sensoriais e o cerebelo para a atividade, e impressionar o primeiro (sempre em completa inatividade e descanso durante o sono profundo do homem) com o retrato vívido do assunto assim transferido. Num homem sensual não-espiritualizado, naquele cujo modo de vida, inclinações e paixões animais, tenha desconectado inteiramente seu quinto princípio ou Ego animal astral de sua alma espiritual superior; como também naquele cujo árduo trabalho físico tenha desgastado tanto o corpo material, a ponto de torná-lo temporariamente insensível à voz e ao toque de sua alma astral - em ambos os casos, durante o sono, o cérebro permanece em completo estado de anemia ou inatividade completa. Tais pessoas raramente, ou nunca, têm sonho algum, a não ser "visões que vêm para passar". No primeiro caso (o do homem sensual não-espiritualizado), na medida em que se aproxima o momento de despertar, e seu sono torna-se mais leve, as alterações mentais que começam a ocorrer constituirão sonhos nos quais não haverá nenhuma participação da inteligência; seu cérebro semi-desperto sugere apenas imagens que são reproduções grotescas e nebulosas de seus hábitos selvagens em vida, enquanto no segundo caso (do homem cujo árduo trabalho físico desgastou seu corpo físico) (a não ser quando ele está fortemente preocupado com algum pensamento excepcional), seu instinto, sempre presente com seus hábitos ativos, não lhe permite permanecer nesse estado de semi- sono, durante o qual, na medida em que a consciência começa a retornar, ocorrem vários tipos de sonhos, mas que vão despertá-lo de uma só vez, sem qualquer intervalo até o completo estado de vigília.

Por outro lado, quanto mais espiritual for um homem, mais ativa será sua imaginação, e maior é a probabilidade que ele receba corretamente visões com as impressões transmitidas a ele por seu que-tudo-vê, seu Ego sempre desperto. Os sentidos espirituais desse último, por estarem desimpedidos da interferência dos sentidos físicos, estão em intimidade direta com seu mais alto princípio espiritual. Esse princípio (embora seja por si só uma parte quase inconsciente do inconsciente absoluto, porque é totalmente imaterial, Absoluto ‡), tendo em si as capacidades inerentes de onisciência, onipresença e onipotência, tão logo sua essência pura entra em contato com a  pura e (para nós) imponderável matéria, transmite parcialmente esses atributos ao puro Ego astral. Assim, pessoas altamente espirituais terão visões e sonhos durante o sono e até mesmo em suas horas de vigília. Esses são os sensitivos, os videntes natos, agora livremente chamados de "médiuns espirituais", não havendo distinção entre um vidente subjetivo, um sujeito "neuripnológico"**, e até mesmo um adepto – aquele que se fez independentemente de suas idiossincrasias fisiológicas e que sujeitou inteiramente o homem exterior ao homem interior. Os menos dotados espiritualmente verão esses sonhos somente com grandes intervalos; e a precisão dos sonhos dependerá da intensidade do sentimento do sonhador em relação ao objeto percebido.
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‡ Em relação a esse ensinamento, todo tipo de exceção será considerado pelos teístas e várias objeções serão levantadas pelos espíritas. É evidente que não se pode esperar receber, dentro dos estreitos limites de um curto artigo, uma explicação completa sobre essa doutrina altamente obscura e esotérica. Ao dizermos que a Consciência Absoluta é "inconsciente" sobre sua consciência (e por isso o intelecto limitado do homem deve ser uma "Inconsciência Absoluta") parece que estamos falando de um triângulo quadrado. Esperamos desenvolver a proposição mais plenamente em um dos próximos números de "Fragmentos da Verdade Oculta", do qual publicaremos uma série. Talvez provemos, então, para satisfação dos não-preconceituosos que o Absoluto, ou o Incondicionado, e (especialmente) o Independente, é uma mera abstração fantasiosa, uma ficção, a não ser que o vejamos a partir do ponto de vista, e sob a luz, do mais educado panteísta. Para isso teremos que considerar o Absoluto apenas como o conjunto de todas as inteligências, a totalidade de todas as existências, incapazes de manifestarem-se senão por meio da inter-relação entre suas partes, como é absolutamente incognoscível e inexistente fora de seus fenômenos e depende inteiramente de suas forças sempre correlacionadas, dependentes, por sua vez da Grande Lei Una.

** Neuripnologia – Estuda a base lógica do sono nervoso (hipnose), considerado em relação ao magnetismo animal. O termo neuripnologia é derivado das palavras gregas neuron, nervo; hypnos, sono; logos, um discurso e significa a base lógica, ou doutrina, do sono nervoso, definida como "uma condição peculiar do sistema nervoso, na qual ele pode ser dirigido por sugestão artificial" ou também como "uma condição particular do sistema nervoso, induzida por uma atenção fixa e absorta do olho mental e visual, em um objeto de uma natureza não excitante". (Nota do Tradutor)
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Assim, na questão dos sonhos comprovados, como em tantas outras, a ciência moderna está diante de um problema não resolvido, cuja natureza insolúvel foi criada por sua própria obstinação materialista, e por sua rotina política há tanto tempo acalentada. Pois, tanto o homem é um ser dual, com um Ego interno § - sendo este Ego o homem "autêntico", distinto e independente do homem exterior proporcionalmente à prevalência (superioridade) ou à fraqueza do corpo material; um Ego, cujo alcance dos sentidos estende-se muito além do limite concedido aos sentidos físicos do homem; um Ego que sobrevive à decadência do seu revestimento externo, pelo menos por um tempo, mesmo quando um mau caminho de vida fez com ele falhasse em atingir a perfeita união com sua parte espiritual mais elevada, ou seja, em misturar sua individualidade com ele (Ego) (a personalidade desaparecendo gradualmente em cada caso) - ou o testemunho de milhões de homens abrangendo muitos milhares de anos - as provas apresentadas em nosso século por centenas de homens mais cultos, muitas vezes pelas maiores luzes da ciência, todas essas evidências, dizemos, não vale para nada. Com exceção de um punhado de autoridades científicas, cercados por uma multidão ávida de céticos e charlatões, que, sem nunca terem visto nada, reclamam, portanto, o direito de tudo negarem, o mundo está condenado como um gigantesco hospício! Existe, no entanto, um departamento especial nele. Ele é reservado para aqueles que, tendo provado a solidez de suas mentes, devem necessariamente ser considerados como impostores e mentirosos.
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§ Quer com um Ego solitário, ou Alma, como afirmam os espíritas, quer com vários – isto é, composto por sete princípios, como ensina o esoterismo oriental – essa questão não está em pauta no momento. Vamos primeiro provar, apoiados por nossa experiência conjunta, que existe no homem algo além da força e matéria de Büchner.
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Teria então o fenômeno dos sonhos sido tão minuciosamente estudado pela ciência materialista que não haveria mais nada a aprender, uma vez que ela fala com tal autoridade sobre o assunto? Nem um pouco. Os fenômenos das sensações e da vontade, do intelecto e do instinto, são, é claro, manifestados por meio de canais dos centros nervosos, sendo o cérebro o mais importante deles. A substância especial por meio da qual essas ações ocorrem tem duas formas, a vesicular e a fibrosa, das quais a última é considerada como sendo simplesmente a propagadora das impressões enviadas para ou a partir da matéria vesicular. No entanto, enquanto essa função fisiológica é diferenciada, ou dividida pela ciência em três tipos - o motor, o sensível e o conector – o misterioso agente do intelecto permanece tão misterioso e tão desconcertante para os grandes fisiologistas modernos como o foi nos tempos de Hipócrates. A sugestão científica de que pode haver um quarto tipo associado às operações do pensamento não tem ajudado no sentido de resolver o problema, mas não foi capaz de lançar nem mesmo o menor raio de luz sobre esse mistério insondável. Nossos homens de ciência não vão jamais compreendê-lo, a menos que aceitem a hipótese de Homem Dual.


(Tradução do artigo original “Are Dreams But Idle Visions?”, Helena Petrovna Blavatsky, publicado em “The Theosophist”, Vol. III. No. 4, January, 1882.)



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